Antonio Roberto de Paula
Na marcha do tempo, as marchinhas ficaram para trás. Na memória dos velhos carnavais, uma lágrima a mais surge na face do pierrô apaixonado. Sempre gostei de Carnaval. A timidez, companheira que foi saindo de mim com o tempo, mas deixou alguns resquícios, me impediu de aprender a dançar de maneira eficaz. Porém, como por encanto, quando chegava o Carnaval, era como se eu incorporasse um folião saído de velhos salões de baile dos anos 1930, 40. Desfilando e cantando antigas marchinhas, fui feliz nos anos 70, 80 e sabia muito bem disso. Hoje, o véu da nostalgia me cobre e faz com que eu faça o retorno. Nostalgia em doses calculadas faz bem. O garoto magro de cabelos compridos volta a brincar como se houvesse o amanhã para mais uma noite de festa.
Os bailinhos, aqueles do sábado, os bailões, aqueles em datas marcantes, começaram junto com Maringá. Já os bailes carnavalescos tiveram início na década de 50, primeiramente no Aero Clube e no Maringá Clube, fundados em 1956. Esclareço que eu não estava presente. As várias pesquisas que venho fazendo para contar a história da Cidade Canção e de seus pioneiros me informam os acontecimentos da menina Maringá. E falando em 1956, foi neste ano que Maringá teve sua primeira rainha do Carnaval: a Donzinha, Maria Freire Lorencete, que tive o prazer e a honra de conhecer nos anos 70. Fui amigo da Donzinha, dos filhos dela, o Tonico e o Enio, da nora Tiana, mulher do Tonico. Frequentei a casa deles na Zona 2. A Donzinha era uma figura maravilhosa, marcante, alegre e despachada. Que pena que não havia câmeras fotográficas como hoje. Não tenho nenhuma foto ao lado da querida Donzinha, que há muito foi alegrar outras dimensões.
Vem jardineira, vem meu amor, não fique triste que este mundo é todo seu…
Chega os anos 60, surgem outros clubes e o Carnaval é o carro-chefe. É o mês do faturamento, melhorar a receita, de aumentar o número de sócios. No anos 70, as festas carnavalescas se intensificaram e no início da década de 80 ainda havia público, motivação. Havia esmero na decoração. Cada clube escolhia um tema, geralmente algo relacionado ao momento político e econômico em que vivíamos, logicamente sem cutucar os militares com vara curta. Havia a preocupação na contratação das bandas. Os clubes anunciavam na imprensa. Todos competindo para fazer o melhor Carnaval de Maringá e região.
Clube Olímpico e Country Club expunham toda a rivalidade nesta época. No final, os dois provavam à sua maneira que tinham promovido o melhor Carnaval. Maringá Clube e Centro Português na área central, Teuto Brasileiro e Acema, com uma avenida Colombo a dividi-los, também tinham grande frequência. O clube dos japoneses ainda não tinha ido para a avenida Kakogawa. Os bailes começavam na sexta-feira e iam até a terça. E havia as matinês no sábado e na segunda. Um aspecto interessante é que dentro dos clubes era realizado o concurso de blocos, uma competição levada muito a sério, com fantasias caprichadas e muitas reclamações quando júri informava quem era o campeão. Brincavam crianças, jovens, senhores e senhoras.
Mulata bossa nova, caiu no huly guly e só dá ela, ye, ye, ye, ye, ye, ye, ye, ye na passarela.
Grande cobertura da imprensa nos clubes. As rádios transmitiam ao vivo os bailes. Havia pagamento para este trabalho, mas era, com certeza, um acontecimento que despertava a atenção dos ouvintes. Era, portanto, notícia e briga pela audiência. As emissoras montavam um central e davam boletins ao longo da noite informando sobre o movimento dos outros clubes, entrevistando diretores e foliões. O Rei momo, acompanhado do prefeito, da primeira dama e da rainha, recebia a chave da cidade e ordenava aos seus súditos que esquecessem as tristezas e as labutas diárias e brincassem à vontade. Essa comitiva fazia o obrigatório périplo pelos clubes. Quando chegavam, a banda parava de tocar e eles subiam ao palco, cumprimentavam os diretores, os foliões, davam uma sambadinha, eram entrevistados e aplaudidos.
Para quem não era associado de clube nenhum, havia o ginásio do Maringá Clube, com grandes lotações todas as noites, o bar sempre cheio. Ali não havia fantasia. Bermuda jeans, camiseta e tênis para as moças e rapazes. Os tiozinhos e tiazinhas iam mais comportados, mas não menos animados. Os ingressos eram bem em conta. O amor estava no ar, na quadra, na arquibancada, nas esquinas. Amor que fortalecia quanto mais fraca fosse a luz. A barra era pesada, mas não me lembro de ter visto brigas. Só alguns sopapos, espalha-rodas. Não me lembro de grande aparato policial.
Nas minhas memórias carnavalescas o ginasião do Maringá Clube está sempre presente. Um contraste interessante nesta época é que, na mesma quadra da Zona 2, o povão e a elite pulavam Carnaval separados por um muro, pois havia o salão da sede do Maringá Clube e do outro lado a quadra de futebol de salão. Em anos diferentes, principalmente na década de 70, fui em todos os bailes de Carnaval de Maringá, pagando, com convite, “varando”, sempre com uma turma de amigos. A maioria ainda e felizmente os trago comigo e volta e meia algum episódio daqueles tempos de confete e serpentina vem à baila.
Se você fosse sincera, ô ô ô ô, Aurora, veja só que bom que era, ô ô ô ô, Aurora…
No Carnaval de rua, na Getúlio Vargas, os clubes colocavam seu luxo para desfilar. A avenida ficava repleta. A gente não tinha paciência para ver aquilo. A gente que eu digo eram eu e meus amigos. Gostávamos do movimento, mas não prestávamos muita atenção no desfile. Numa cidade com poucas atrações, nenhum jovem iria desperdiçar um local com tanta gente. Do desfile de rua, me vem à lembrança o Iris, negro alto, magro, já falecido, um dos pioneiros do samba maringaense. Morador do Jardim Alvorada, pobre, carroceiro, presidente da Asa Negra, escola de samba que vivia às turras com a Unidos da Vila Operária. O pau quebrou muitas vezes entre os integrantes das duas escolas. Passavam os blocos e depois vinham as duas. Nem sei se atravessavam o samba, mas era interessante vê-los dançando, tocando seus instrumentos, com o Iris desesperado, organizando o grupo de sambistas. Iris nasceu em 1947, ano da fundação de Maringá, e morreu em 2002. Os moradores da rua Pastor Anísio, do Jardim Alvorada, onde ocorriam os ensaios, dormem mais tranquilos sem o som dos surdos, repiques e caixas de guerra da Asa Negra presidida pelo Iris, mas certamente ficou a saudade de todo aquele movimento naquela região do Alvoroço. Sim, o Alvorada era pejorativamente chamado de Alvoroço. A Asa Negra teve sua cota de participação para que o bairro ganhasse o apelido.
O Carnaval de rua de Maringá era forte nos anos 70 e 80 porque os bailes nos clubes eram fortes e as opções para a população se divertir, para quem não tinha carteirinha de sócio de clube, eram bem restritas: futebol, cinema e os bailinhos comportados nas residências. Então, a força clubística migrava para a avenida Getúlio Vargas porque envolvia competição, animação, união dos associados, literalmente levantando a bandeira da associação a que pertenciam. Não temos a tradição do samba, do Carnaval, mas o maringaense sempre foi exemplar para criar e manter clubes, entidades, para se agrupar. As escolas de samba, que são a essência do Carnaval, ficavam em plano secundário nas apresentações.
Quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão…
Por que o Carnaval não é como antes? Porque aumentaram as opções de lazer e entretenimento, clubes fecharam ou mudaram o foco, tiveram que se adequar à rotina do sócio e não o contrário; antes, não havia tantas facilidades para ir à praia, para o Exterior, não havia tantos condomínios na cidade, tantas pousadas, não havia TV a cabo e a programação da TV aberta era bem fraca, não havia internet, tantos bares bons na cidade, casas noturnas. Aliás, nos anos 80 surgiram casas noturnas de alto padrão em Maringá, que passaram a competir com os clubes. Hoje, a turma dos 17 aos 35 anos tem outras prioridades. O romântico Carnaval foi ficando para trás. Os bailes do final dos anos 80 para cá vêm tocando as músicas antigas só na primeira seleção, depois vem uma salada. A ditadura das gravadoras, que se estende para a televisão, impôs estilos variados que estão longe de emocionar. Só servem para chacoalhar. Carnaval é música, alegria, emoção, atitude, história. O Carnaval está desaparecendo, não só em Maringá, porque o Brasil e o mundo mudaram. A mídia o mantém em alguns lugares porque é interessante para ela.
Daqueles de adolescente, de jovem, uma cachoeira de recordações. A luta para entrar nos clubes sem pagar até porque dinheiro no bolso da rapaziada daquela época era um artigo raro, praticamente inexistente. E a aventura era outro componente definitivo, arrasador, para impulsionar a coragem na tentativa de burlar a vigilância. Coragem e criatividade. Criatividade que aprendi com os amigos, verdadeiros mestres na arte de “varar”. Muitas vezes fazíamos via-sacra pelos clubes, tentando o melhor lugar para entrar. Alguns porteiros se tornaram amigos da gente, acho que ficavam sensibilizados. Mas a maioria era difícil e até truculenta.
Me dá um gelinho aí que eu tô a 100 por hora, se não parar o calor, eu jogo a roupa fora.
Paro para dar uma risada estridente, nostálgica. Voltando e cantarolando as marchinhas que ficaram na memória, que já naquela época eram antigas: “Se você fosse sincera, ô ô ô, Aurora…”, “Quanto riso oh quanta alegria mais de mil palhaços no salão”, “Me dá um gelinho aí, que eu tô a 100 por hora…”, “Chegou o general da banda ê ê, chegou o general da banda ê a.” Dançando, correndo ou caminhando no salão em sentido horário, todos no mesmo sentido, abraçado a uma menina numa música, revezando logo em seguida, sendo uma composição do trenzinho, esparramado no chão no intervalo, suado, pegando uma fila gigante para ir ao banheiro, batalhando um encontro futuro, uma paixão que vai sumir no dia seguinte e voltar para casa a pé para casa quando os padeiros e leiteiros estão fazendo as entregas nas residências. O Carnaval mudou porque Maringá se tornou uma senhora apressada correndo não sei para onde. Mudou porque a gente brincava e hoje não brinca mais daquele jeito. O mundo mudou. A gente mudou.

Donzinha, em 1956, a primeira rainha do Carnaval de Maringá.