Uma entrevista sobre a história do Carnaval de Maringá
Uns anos atrás, não me lembro exatamente quando, um repórter me pediu que respondesse umas perguntas via e-mail sobre o Carnaval de Maringá. Respondi, mas as respostas não foram publicadas na íntegra. Ele fez o resumo de algumas. Não me lembro do nome do repórter e tenho dúvidas sobre qual era o veículo. mas isto não vem ao caso. Só sei que não foram publicadas totalmente e considerei um desperdício. Deve ter sido por falta de espaço. Mas confesso que fiquei desapontado na época. Se o caro repórter ler estas linhas, entre em contato para eu informar o seu nome e para quem ele trabalhava. A idade está me deixando esquecido. Isto também não vem ao caso.
Agora, me recordo que na época falei com o Donizete Doni, da revista Tradição, para que ele publicasse uma crônica minha sobre o Carnaval, e aproveitei boa parte desta entrevista.
Hoje, procurando uma coisa, encontrei outra. Olhando os muitos textos antigos que guardo sabe-se lá o porquê, encontrei este e resolvi compartilhar com os amigos. Essas histórias sobre o Carnaval da cidade, analiso, devem ser contadas, como devem ser contadas todas as histórias sobre as cidades e o povo que nelas mora. As fotos, que não ilustravam a entrevista, que fui atrás agora, são do arquivo do amigo Tabajara Marques e outras do meu acervo. Vamos lá:
Entrevista na íntegra com Antonio Roberto de Paula sobre o Carnaval de Maringá
O senhor saberia me dizer quando começaram os bailes em Maringá ou região, aproximadamente?
Os bailes começaram junto com a cidade. Já os bailes de Carnaval, tiveram início na década de 1950, primeiramente no Aero Clube e no Maringá Clube. Em 1956, foi escolhida a primeira rainha do Carnaval de Maringá, a Donzinha Lorencete, que tive o prazer e a honra de conhecer nos anos 1970. Fui amigo da Donzinha, dos filhos dela, o Tonico e o Ênio, da nora Tiana, frequentei a casa deles na Zona 2. A Donzinha era uma figura maravilhosa, marcante, alegre e despachada. Depois do Aero Clube e Maringá Clube, foram surgindo outros clubes, sempre promovendo bailes de Carnaval.
– Quando foi o auge desse tipo de festa?
Nos anos 1960 e 70. O Carnaval era o carro-chefe dos clubes, era o mês de maior faturamento. Eles se esmeravam na decoração, se preocupavam em trazer ótimas bandas, divulgavam na imprensa.
– Quais bailes eram mais famosos por aqui?
Falo por experiência própria, de quem acompanhou o que acontecia nos anos 70 em Maringá. Havia uma grande rivalidade entre o Olímpico e o Country para ver quem promovia o melhor baile. O Maringá Clube, o Centro Português, a Acema e o Teuto Brasileiro também faziam ótimos bailes. Era no Carnaval que o associado comparecia em massa, era o período em que mais se conseguia associados, época de pôr a mensalidade em dia para poder frequentar. Começava na sexta-feira e ia até terça. E havia as matinês no sábado e na segunda. Um aspecto interessante é que dentro dos clubes havia competição, o concurso dos blocos. Havia grande cobertura da imprensa. As emissoras de rádio transmitiam ao vivo os bailes dos clubes. Montavam uma central e davam boletins ao longo da noite informando sobre os outros clubes, entrevistando diretores e foliões. Para quem não era associado de clube nenhum, havia o ginásio do Maringá Clube, com grandes lotações todas as noites, o bar sempre cheio. Ali não havia fantasia, os ingressos eram bem em conta. A barra era pesada, era possível perceber, mas não me lembro de ter visto muitas brigas. Aliás, nas minhas memórias carnavalescas o ginasião do Maringá Clube está sempre presente. Um contraste interessante nesta época é que, na mesma quadra da Zona Dois, o povão e a elite pulavam Carnaval separados por um muro, pois havia o salão da sede do Maringá Clube e do outro lado a quadra de futebol de salão. Em anos diferentes, principalmente na década de 70, fui em todos os bailes de Carnaval de Maringá, pagando, com convite, “varando”, sempre com uma turma de amigos. Bons tempos.
– Algum personagem que ficou famoso na cidade?
Reginaldo Benedito Dias citou o Cabeção da Unidas da Vila Operária. Cito o Iris, alto, magro, já falecido, um dos pioneiros do samba maringaense. Morador do Jardim Alvorada, pobre, carroceiro, presidente da Asa Negra, escola de samba que vivia às turras com a Unidos da Vila Operária. O pau quebrou muitas vezes entre os integrantes das duas escolas. Elas desfilavam no Carnaval de rua de Maringá. Passavam os blocos e depois vinham as duas. Nem sei se atravessavam o samba, mas era emocionante vê-los dançando e tocando seus instrumentos, com o Iris desesperado, organizando seu grupo de sambistas. Iris nasceu em 1947, ano da fundação de Maringá, e morreu em 2002. Os moradores da rua Pastor Anísio, do Jardim Alvorada, onde ocorriam os ensaios, dormem mais tranquilos sem o som dos surdos, repiques e caixas de guerra da Asa Negra presidida pelo Iris, mas certamente ficou a saudade.
– Existiu também uma cultura de carnaval de rua, com blocos?
O Carnaval de rua de Maringá era forte nos anos 70 e 80 porque os bailes nos clubes eram concorridos e as opções de entretenimento para a população, para quem não era sócio de clube, eram raras. A força clubística migrava para a avenida Getúlio Vargas porque envolvia competição, animação, união dos associados, literalmente, levantando bandeira da associação a que pertenciam. Não temos a tradição do samba, do Carnaval, mas o maringaense sempre foi exemplar para criar e manter clubes. As escolas de samba, que são a essência do Carnaval, ficavam em plano secundário nas apresentações.
– O senhor chegou a participar de bailes durante o período em que as festas eram maiores e tinham mais adeptos? Poderia dar um depoimento como participante da festa ou contar alguma história interessante, engraçada ou inusitada para gente?
Dos meus tempos de adolescente, me recordo da luta para entrar nos clubes sem pagar. Era preciso coragem e criatividade (que aprendi com amigos, verdadeiros mestres na arte de “varar”). Muitas vezes fazíamos via-sacra pelos clubes, tentando o melhor lugar para entrar. Alguns porteiros ficaram amigos da gente, acho que ficavam sensibilizados. Mas a maioria era difícil e até truculenta. Também ficaram na memória as marchinhas, que já naquela época eram antigas: “Se você fosse sincera, ô, ô, ô, Aurora…”, “Quanto riso oh quanta alegria mais de mil palhaços no salão”, “Me dá um gelinho aí, que eu tô a 100 por hora…”. Hoje, quando ouço uma dessas, entro nos anos 70.
– Por que acha que esse estilo de festa de carnaval está desaparecendo na cidade, sendo que em cidades como Rio de Janeiro ele está voltando a ter adeptos como tinha antigamente?
Aumentaram as opções de lazer e entretenimento, clubes fecharam ou mudaram o foco, tiveram que se adequar à rotina do sócio e não o contrário; antes, não havia tantas facilidades para ir à praia, para o Exterior, não havia tantos condomínios na cidade, não havia tantas pousadas, não havia TV a cabo e a programação da TV aberta era bem fraca, não havia internet, não havia tantos bares bons na cidade, casas noturnas. Aliás, nos anos 80 surgiram casas noturnas de alto padrão em Maringá, que passaram a competir com os clubes. Hoje, a turma dos 17 aos 35 anos tem outras prioridades. O romântico Carnaval foi ficando para trás. Os bailes do final dos anos 80 para cá vêm tocando as músicas antigas só na primeira seleção, depois vem uma salada. A ditadura das gravadoras, que se estende para a televisão, impôs estilos variados que estão longe de emocionar. Só servem para chacoalhar. Carnaval é música, alegria, emoção, atitude, história. O Carnaval está desaparecendo, não só em Maringá, porque o Brasil e o mudo mudaram. A mídia o mantém em alguns lugares porque é interessante para ela, comercialmente atrativo para ela.


